Mas é claro que ter filhos traz felicidade!
Saiu na revista Época uma matéria com o título “Ter filhos traz mesmo felicidade?” e gerou certa polêmica, claro.
Eis um problema: a paternidade, que deveria ser o momento mais feliz da vida dos casais – de acordo com tudo o que aprendemos –, na verdade nem sempre é assim. Ou, melhor dizendo, não é nada disso. Para boa parte dos pais e (sobretudo) das mães, filhos pequenos são sinônimo de cansaço, estresse, isolamento social e – não tenhamos medo das palavras – um certo grau de infelicidade. Ninguém fala disso abertamente. É feio. As pessoas têm medo de se queixar e parecer desnaturadas. O máximo que se ouve são referências ambíguas e cheias de altruísmo aos percalços da maternidade, como no chavão: “Ser mãe é padecer no Paraíso”. Muitas que passaram pelo padecimento não se lembram de ter visto o Paraíso e, mesmo assim, realimentam a mística. Costumam falar apenas do amor incondicional que nasce com os filhos e das alegrias únicas que se podem extrair do convívio com eles. A depressão, as rachaduras na intimidade do casal, as dificuldades com a carreira e o dinheiro curto – disso não se fala fora do círculo mais íntimo e, mesmo nele, se fala com cuidado. É tabu expor a própria tristeza numa situação que deveria ser idílica.
A matéria tem vários pontos interessantes de serem abordados e que são sim, reais. Mas essencialmente, uma coisa me chamou a atenção: a palavra “infelicidade”, escrita por diversas vezes no texto, que fala de filhos.
Para mim, ter filhos é uma opção, uma causa que você abraça, um estilo de vida que cada casal leva do seu jeito. E existe sim muita frustração, muito cansaço, muita angústia, muito medo, muita culpa, gastos… aquela vida (social, sexual…) que você tinha e que some/muda rapidinho. Mas, pelo menos na minha vida materna, “infelicidade” é uma coisa que não existe. Todos os outros sentimentos existem ou já existiram nesse coraçãozinho aqui, até depressão pós parto eu tive. Mas nunca me senti “infeliz” em ser mãe.
Lembro que antes de me casar, algumas pessoas diziam “não faça isso!” ou “pois é, tem gente que quer sair e tem gente que quer entrar”. O mesmo eu ouvi quando falei de ter filhos. Ou seja, as pessoas nos alertam sim, de maneira muito negativa e subjetiva, é verdade, mas alertam. A gente não ouve porque quer ousar, quer tentar, quer pagar pra ver e porque também sabe que vale a pena.
Claro que poderiam ter me pego pelo braço e dito a real mesmo: “Michelle, ó, seguinte. Essa sua vida sossegada, egoísta, livre, vai acabar quando você tiver filhos. E ser mãe é muito, mas muito mais difícil do que você pode imaginar”. Talvez eu tivesse enfrentado as coisas de forma diferente, talvez eu estivesse mais preparada. Mas as pessoas normalmente só falam das trocas de fralda, da privação de sono… Não falam desses sentimentos ambíguos que temos durante toda a jornada da maternidade.
Desde o comecinho, se alguém me perguntava como era ser mãe, eu sempre contava todos os percalços, todos os perrengues, nunca fantasiava ou enchia de flores. Contava os dois lados da moeda, o bom e o ruim. E acho que assim que tem que ser mesmo.
A matéria diz que deixamos de falar a verdade, que nos sentimos “infelizes”, por vergonha. Mas no fundo, bem no fundo, todo mundo sabe que ser pai e ser mãe é punk e que tem horas que temos vontade de largar tudo e fugir pro México. E não há nada de vergonhoso em admitir isso não. Afinal, você não abandona sua condição de ser humano porque teve filhos.
O filósofo Luiz Felipe Pondé termina a matéria dizendo que “O desafio de ser pai ou mãe requer virtudes como coragem e generosidade – e talvez alguma dose de loucura” e pra mim, isso até é verdade, mas vale para muita coisa na vida, não só para ter filhos. Tudo requer uma grande dose de coragem, generosidade e loucura.
E vocês, o que acharam da matéria?





















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